A estética do universo e a consagração a Nossa Senhora – Parte 2
Plinio Corrêa de Oliveira

Há um conjunto de regras de estética que nos podem facilitar o conhecimento da beleza que Deus pôs no Universo, como ponto de partida para subirmos à consideração de sua beleza incriada. A mais fundamental dessas regras é a coexistência harmônica da unidade e da variedade.
Em vez de nos atermos, entretanto, a uma enumeração e definição fria desses princípios, seria talvez mais interessante que os consideremos enquanto realizados em alguns dos seres que mais facilmente nos caem debaixo dos olhos.
Unidade
Comecemos pelo mar. Um dos primeiros elementos de sua grandeza é precisamente a unidade. Todos os mares da Terra comunicam-se entre si, e constituem uma imensa massa de água que cinge o globo terrestre. Assim, postos em qualquer orla do mar, em qualquer ponto do mundo, uma das considerações mais agradáveis que nos é dado fazer é lembrar que a imensa massa líquida, que se estende diante de nós até as fímbrias do horizonte, não se encerra ali e tem atrás de si imensidades a que se sucedem outras imensidades, para formar a grande e única imensidade do mar que se move, que se joga e que brinca por toda a superfície da Terra.

Variedade
Mas ao mesmo tempo que o mar nos apresenta essa unidade esplêndida, impressiona pela grande variedade que nele podemos observar. Variedade, em primeiro lugar, quanto ao movimento. Ora o mar se apresenta manso e sereno, parecendo satisfazer todos os desejos de paz, tranquilidade e quietude de nossa alma; ora ele se move discreta e suavemente, formando em sua superfície pequenas ondas que parecem brincar diante de nós, para fazer sorrir e distender-se nosso espírito, como se tivesse diante de si as realidades amenas e aprazíveis da vida; ora, por fim, ele se mostra majestoso e bravio, erguendo-se em movimentos sublimes, arremetendo furiosamente contra rochedos altaneiros e deslocando de seus abismos massas de água insondáveis, para submergir ilhas e invadir continentes. Neste estado, o mar parece dominado de uma fúria avassaladora, e canta com seus rugidos e sua grandeza todo um poder que existe no mais profundo dele, mas do qual não se suspeitava nem um pouco nos seus momentos de mansidão e de graça. Parece-nos então presenciar os lances mais empolgantes e heroicos da História.
Variedade estética
Também há variedades estéticas no mar. Às vezes é ele tão claro, que se pode ver através de uma grande massa líquida até o fundo de suas águas; outras vezes ele se mostra escuro, impenetrável, profundo, misterioso. Se em certos panoramas o mar se apresenta em superfícies imensas e quase sem limites, em outros panoramas está circunscrito pelos acidentes do litoral, e forma pequenos golfos fechados em que, por assim dizer, ele se compraz em estar em intimidade conosco, fazendo-se pequeno para melhor se deixar ver e amar.
Pelos seus ruídos, o mar não é menos variado. Ora seu murmúrio dá a impressão de uma carícia que embala e faz dormir, ora não passa de um fundo auditivo que se parece com a prosa de um velho amigo, que já muitas vezes se ouviu. Mas pouco depois ele nos fala com o bramido dominador de um rei, que deseja impor a sua vontade a todos os elementos.
O modo como ele se “comporta” na praia é igualmente variado. Às vezes o mar chega à terra célere e ofegante, outras vezes caminha para ela tardio e preguiçoso, em ondas que se movem languidamente. Outras vezes parece tão completamente parado, que se diria quase que ele se contenta em ver a terra sem tocá-la.
Ora, todas essas diversidades do mar não teriam para nós concatenação nem encanto, se não se apresentassem sobre o grande fundo de uma unidade fixa, invariável e grandiosa. Esta é a beleza da unidade na variedade.
Devemos entretanto reconhecer que a variedade do mar é um elemento de beleza tão poderoso por não ser uma variedade qualquer, mas oferecer em alto grau os caracteres específicos da verdadeira variedade harmônica. Tais caracteres são:
Oposição – Essa variedade chega até a oposição. Quer dizer, é tão grande que seus pontos extremos chegam a atingir aspectos opostos, e como que contraditórios entre si. Esta variedade, pelo próprio fato de que reúne em uma só gama extremos tão pronunciados, tem uma suprema harmonia, uma indiscutível beleza. Nós não encontraríamos tanta beleza no mar se ele não soubesse ser, por exemplo, tão extremamente manso e tão extremamente furioso; tão extremamente majestoso e tão extremamente gracioso. É na harmonização do extremo da mansidão com o extremo da fúria, por exemplo, que se verifica a perfeição da variedade do mar.
Simetria – Esta variedade de oposição deve comportar uma certa simetria. Quer dizer, é necessário que quando uma coisa tem um caráter, e o leva a um extremo, o lado oposto chegue a um extremo igualmente acentuado. Se o mar fosse extremamente furioso em certos movimentos, e apenas um pouco calmo em outros, sua beleza não seria grande. Para que a oposição seja perfeita, cumpre que o mar possa ser tão furioso em umas horas quanto é profundamente manso em outras. E só com esta simetria é ele inteiramente belo.

Gamas intermediárias – Mas, ao mesmo tempo, as variedades harmônicas das gamas intermediárias também concorrem notavelmente para a beleza do mar. Essas situações de transição são tão harmônicas, que nós em determinados momentos nem podemos dizer bem como o mar nos parece. Estará bravo? Estará manso? Estará claro? Estará escuro? Não o sabemos dizer, porque o mar vai passando de um extremo para outro através de várias fases intermediárias; tão esplendidamente matizadas e harmônicas, que a linguagem humana não é suficiente para as descrever, e o único processo para tal é o da comparação. Por exemplo, quem viu o mar que esteve furioso e está ficando manso pode dizer que ele está manso; mas quando se lembra do mar verdadeiramente manso, e o considera nesse momento de transição, tem ainda a impressão do mar furioso. Por esta espécie de contradição de aspectos opostos existentes no mesmo meio termo, tem-se bem a ideia de toda a riquíssima gama de estados intermediários que o mar atravessa.
Verdadeira continuidade – Mas a relação entre esses próprios estados intermediários deve apresentar uma verdadeira continuidade. De um extremo a outro o mar não salta, mas passa sempre com rapidez maior ou menor por todos os estados intermediários. Esses estados são habitualmente perceptíveis em suas sucessões, como matizes que se substituem uns aos outros. Mas quando a sucessão dos matizes é muito perfeita, dá por vezes a impressão de que não muda. Ao cabo de pouco tempo, e sem saber como, o observador está diante de um quadro diverso. É que essas mudanças foram tão delicadas e tão imperceptíveis, que elas excederam a precisão de nossos sentidos, ou pelo menos a acuidade de nossa atenção.
Variedade do progresso

Há uma forma de variedade que não é tão nítida no mar, mas é muito relevante no céu: a variedade do progresso. No firmamento há uma variedade de aspectos que vão desde a aurora até a noite posta; de maneira tal que na aurora oferece um quadro encantador, primaveril, matutino; depois vem ganhando em colorido, em força e majestade, até chegar à gloriosa plenitude do meio dia; em seguida ele se vai esvaindo lentamente, até chegar às tristezas do crepúsculo; e por fim ele toma o seu aspecto noturno, que se conserva mais ou menos contínuo e imóvel até os primeiros clarões da aurora. Há assim, ao longo do dia, uma harmoniosa sucessão de aparências, que vão dos primórdios ao apogeu e deste à decadência, um ciclo de aspectos variados de progresso e retrocesso, que o céu percorre.
Princípio monárquico – Outro princípio de variedade, que confere ao céu uma beleza peculiar, é o princípio dito monárquico. É a ordenação das múltiplas formas e variedades em torno de um elemento ou ponto central, em função do qual elas se harmonizam e reciprocamente se explicam. É o papel do sol no firmamento. Em função dele, no céu, todas as variedades não são senão fundos de quadro, que cooperam para realçar de mil modos toda a sua beleza.
Assim temos os vários princípios da beleza realizados no mar e no céu, isto é, em duas criaturas que estão frequentemente diante dos nossos olhos, e que são esplêndidas semelhanças da beleza incriada e espiritual de Deus Nosso Senhor.
Fonte: Revista Catolicismo n° 847, julho de 2021. Link: Catolicismo n° 847, julho de 2021.



