A estética do universo e a consagração a Nossa Senhora – Final
Plinio Corrêa de Oliveira

São frequentes em torno de nós as pessoas que supõem ter verdadeiro espírito católico, porque recebem uma ou outra vez os sacramentos e praticam alguns atos de piedade. Entretanto, os seus modos de pensar, de sentir e de agir são marcados por um espírito oposto ao da Igreja. Até mesmo entre as pessoas piedosas dá-se, em escala menor embora, o mesmo fato.
Nessas condições, há razão para sentirmos uma verdadeira desconfiança até de nós mesmos. E devemos, com suma diligência e um grande temor, dedicar-nos à tarefa de distinguir em nossa época aquilo que há de bem e de mal. Obriga-nos a tal o santo receio de renunciar a alguma coisa daquele depósito de tradições católicas que recebemos de nossos maiores, e que devemos transmitir aos pósteros não só intacto, mas até acrescido.
Está bem corrigir judiciosamente o passado. Mas modificá-lo sem esse discernimento, levianamente, a todo propósito, e às vezes pelo simples gosto da modificação, eis o que não se deve de modo algum fazer. Não se pode imaginar algo mais contrário à verdadeira consagração a Nossa Senhora do que esta falta de cuidado no proteger a tradição cristã. Porquanto, se o Terceiro carmelitano se entrega sem critério nem reservas ao século, ele serve a dois senhores, não é um verdadeiro carmelita, e a sua consagração não é uma consagração efetiva.
Assim, embora repudiando formalmente a ideia de que devemos conservar imóvel o passado, afirmamos que nunca, na história da Civilização Cristã, foi tão difícil a alguém fazer esta discriminação entre os valores verdadeiros do passado e aquilo que nele deve ser retificado.
Disso dão bem uma noção as palavras iluminadas do discurso do Santo Padre Pio XII ao Patriciado e à Nobreza Romana, no dia 19 de janeiro de 1944. Elas deixam bem ver que, em tudo aquilo que é renovação feita segundo o espírito da Igreja, deve entrar um sentido de profundo amor à tradição.
Como conclusão, podemos afirmar que a nossa consagração no século, a nossa consagração a Nossa Senhora, expressa pelo ato efetivo da profissão e rememorado pelo uso e pela posse do escapulário, é realizada em nossos dias pela recondução das almas e de todos os valores da sociedade temporal, para darem glória a Deus dentro das sendas da Civilização Cristã, tendo em Deus a sua causa final, tendo em Deus a sua causa exemplar, dentro de um rumo que, se é um rumo de verdadeiro progresso, é por isso mesmo, e nisso mesmo, um rumo indicado pelos princípios magníficos da Tradição Cristã.
Fonte: Revista Catolicismo n° 847, julho de 2021. Link: https://catolicismo.com.br/acervo/num/0847/P38-39.html.



