A estética do universo e a consagração a Nossa Senhora – Parte 5
Plinio Corrêa de Oliveira

Em que sentido um católico pode e deve ser homem do seu tempo?
Toda época costuma diferenciar-se da anterior por conter alguns defeitos que ferem a atenção, e que se deseja corrigir, mas muitas vezes dissente dela por discordar das suas qualidades. Em relação ao passado próximo de que nós provimos, nós não queremos, não devemos e não podemos aceitar tudo, mas rejeitar certos elementos criteriosamente. A época passada apreciava, por exemplo, a oratória florida, farfalhante, verbosa e torrencial, que se manifestava em todas as ocasiões possíveis. Um aniversário, uma formatura, um casamento, o regresso de uma longa viagem, tudo era ocasião para um discurso. E tais discursos eram tão padronizados, que já havia manuais contendo peças oratórias de circunstâncias. Essas peças podiam ser repetidas, por exemplo, em todo o Brasil, desde o Amazonas até o Rio Grande do Sul, em Portugal e nas colônias.
Nós achamos que o tipo de homem romântico que nos antecedeu era pouco eficiente, tinha o espírito povoado de sonhos vácuos e uma imaginação em fogo, não primava pelo rigor da lógica nem pelo desejo de traduzir em fatos concretos aquilo com que sonhava. Para nós, evidentemente, toda essa abundância de discursos se patenteia supérflua. Os poucos discursos que se fazem hoje devem ser rápidos, em linguagem menos convencional, menos hirta, uma linguagem viva. Para nós, todas as flores daquela retórica estão já gastas pelo uso, e portanto devem ser relegadas ao museu. Nenhum de nós se extasiaria, como um velho amigo meu, ouvindo um discurso de Rui Barbosa a bordo de um navio; no qual, para dizer uma mesma coisa [o chicote], o expansivo tribuno empregara 14 sinônimos. Quanto a nós, pensaríamos em 14 minutos perdidos, e nos aborreceríamos com essa prolixidade supérflua.
Segundo os cânones do romantismo passado, por exemplo, o gosto pela tristeza era um atributo essencial do espírito. Um moço, segundo o estilo em voga, deveria ser doente e infeliz, deveria exalar a sua infelicidade e a sua doença numa guitarra, deveria trocar a noite pelo dia, deveria ser um daqueles sonhadores de garoa e de orgias, tão típicos da velha Faculdade de Direito [de São Paulo]. A nós, isso tudo hoje nos parece errado. Sem esquecer a orgia, parece-nos que essa glorificação da melancolia, esse amor à doença, essa mania de se sentir triste, são antinaturais e ridículas.
Desta ordem de ideias poderíamos passar facilmente para outra. A incompreensão dos homens para com o mar, por exemplo, é flagrante de uns 120 ou 130 anos para cá, e no Brasil muito mais recentemente. Quem é que, tendo recursos para construir um palácio com o vulto do Catete [no Rio de Janeiro], haveria de o fazer, como seu proprietário, com os fundos para o mar e a frente para a cidade, num alheamento patente das belezas do panorama do Flamengo? Conta-se que esse senhor queria ao mesmo tempo construir nos outros ângulos da praça do palácio três outras moradias iguais para seus filhos, de maneira que o mar, nessa concepção arquitetônica e urbanística, estava completamente excluído. Quem de nós pode achar que se deve voltar a essa concepção? O Palácio do Itamarati, visitado com encanto até hoje pelos diplomatas estrangeiros, quem de nós, se o construísse hoje, haveria de o colocar no fundo do Rio de Janeiro, em vez de o situar em uma bonita ilha, ou pelo menos em um ponto pitoresco do litoral?
Nenhuma época do passado pode ou deve ser intocada. É sempre possível, por um movimento verdadeiramente progressivo, abolir defeitos e melhorar qualidades. Mas isto não basta, é preciso também que nós nos lembremos de que muitas das transformações instituídas no presente não representam um trabalho inteligente para depurar e fazer progredir as tradições que recebemos; mas, pelo contrário, constituem um esforço de destruição clara ou de falseamento sub-reptício dos valores da Civilização Cristã.
Em carta dirigida ao Eminentíssimo Cardeal Arcebispo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota pelo Exmo. Mons. Angelo Dell’Acqua, então substituto da Secretaria de Estado da Santa Sé, falando com a responsabilidade de seu cargo, pudemos ler que o mundo contemporâneo, por efeito do laicismo, perdeu quase completamente o senso cristão da vida. Chamo a atenção para estas palavras. Ora, sabemos que um homem não fica desprovido de senso. Se ele perde o senso cristão, o senso anticristão o substitui. Portanto, quase todos que existem hoje estão marcados, em escala maior ou menor, pelo senso anticristão da vida. Somos infelizmente filhos de nosso tempo, e estamos todos expostos ao risco de trazer em nós, insuspeitadas, muitas das infiltrações desse senso anticristão da vida.
Fonte: Revista Catolicismo n° 847, julho de 2021. Link: Catolicismo n° 847, julho de 2021.



