A estética do universo e a consagração a Nossa Senhora – Parte 4
Plinio Corrêa de Oliveira

Para que compreendamos bem como servir Nossa Senhora em nosso século, é preciso que tenhamos bem em consideração as circunstâncias peculiares a ele. Vivemos em nossos dias em um processo revolucionário que, tendo começado com o protestantismo e o humanismo no século XVI, alcançou um triunfo universal pela Revolução Francesa no século XVIII, e pela extensão dos princípios desta ao mundo inteiro no século XIX. Esse processo chega agora aos extremos de si mesmo na afirmação do comunismo. Nós estamos, portanto, no clímax de uma longa série de apostasias. Nisto está a marca dominante dos acontecimentos de nossos dias, e das circunstâncias dentro das quais a Igreja age, vive e luta atualmente.
Em outras épocas a Igreja também tem tido adversários a enfrentar. Nunca, talvez (e nesse sentido são tão numerosas as citações pontifícias, que eu me dispenso de as lembrar aqui), teve Ela que enfrentar uma tão profunda investida, que a ataque com tal furor em todos os pontos de sua doutrina, de seus costumes, de suas instituições e de suas leis. Nunca seus inimigos mostraram tanta coerência, tanta unidade de objetivos e tanto rancor quanto em nossos dias.
Assim, e seja qual for o ângulo do qual vejamos o panorama hodierno, é preciso que coloquemos no centro de toda a nossa perspectiva este fenômeno: a investida multissecular das forças do mal, chegada hoje a seu paroxismo.
Esse processo revolucionário mina e corrói uma realidade gloriosa, que é a Civilização Cristã. Assim, portanto, temos um inimigo a atacar e um patrimônio a defender. O patrimônio é todo o imenso e inapreciável tesouro de tradições desses 20 séculos de Civilização Cristã, que tivemos atrás de nós. Patrimônio esse que não deve ser considerado como um valor estático, mas ao qual, pelo contrário, cada século foi dando o seu contributo. Também nós, pela nossa fidelidade e pela nossa vida, devemos aumentar este glorioso acervo. Em face de nós está essa Revolução, que é justamente o contrário de tudo que amamos, e devemos atacá-la em todas as suas manifestações.
Assim se explica um dos aspectos essenciais de nosso apostolado, realmente adequado aos nossos dias. Tal aspecto merece uma explanação conveniente, para que compreendamos bem o que vem a ser in concreto, e em sua plenitude, a perseverança na nossa consagração a Nossa Senhora. Com efeito, costuma-se dizer que o católico deve ser o homem de seu tempo, deve ter a vista aberta para todos os progressos, deve ser um homem que se acomoda tanto quanto possível às circunstâncias da época em que vive. Ninguém poderia dizer que, em si mesmas, essas expressões são falsas. Mas devemos saber distinguir uma aceitação inteligente e cheia de discernimento de uma aceitação simplória, impensada, fraca, tíbia, que abrange não só o que as condições da época têm de bom, mas também o que o espírito da Revolução instilou veladamente, até em muitas das boas condições da nossa época. De modo que há aceitações a fazer, e deve-se ser homem do tempo, mas há também recusas categóricas a fazer. É exatamente a linha divisória entre uma coisa e outra que deve ser por nós marcada com todo o cuidado.
Fonte: Revista Catolicismo n° 847, julho de 2021. Link: Catolicismo n° 847, julho de 2021.



