A estética do universo e a consagração a Nossa Senhora – Parte 3
Plinio Corrêa de Oliveira

Sabemos pela doutrina católica que a formosura de todas essas coisas é imagem de Deus, Espírito puro e infinitamente perfeito. Assim, já que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus, elas também são imagens do homem, e que o céu e o mar, em seus vários estados, fazem lembrar a alma humana em suas várias disposições: o jogo complexo das paixões humanas, as virtudes da alma humana quando esta realmente reflete a santidade de Deus Nosso Senhor.
Estas regras de estética são meios para considerarmos a verdadeira beleza da santidade no homem. E portanto a beleza e santidade da mais alta de todas as meras criaturas, Nossa Senhora, que com tanta e tão esplêndida propriedade tem sido e deve ser comparada ao céu e ao mar. Alma de uma imensidade inefável, na qual todas as formas de virtude e beleza existem com perfeição supereminente, da qual nenhum de nós pode ter uma ideia exata. Nossa Senhora é bem aquele mar, aquele céu de virtudes diante do qual o homem deve ficar estarrecido e enlevado, e com todas as suas forças deve procurar amar e imitar.
Em Nossa Senhora se encontra também a mesma unidade na variedade dos dons de Deus. Isto se nota bem no fato de que, sendo una, Ela se apresenta a nós na variedade admirável das suas invocações. Ela é Nossa Senhora da Paz e Nossa Senhora dos Prazeres, mas também é Nossa Senhora das Dores; é a Saúde dos Enfermos, mas é Nossa Senhora da Boa Morte. Nela todos os contrastes se harmonizam. Ela é ao mesmo tempo Auxílio dos Cristãos e Refúgio dos Pecadores; Ela é glorificada pela sua humildade incomparável, mas todos os videntes que tiveram a felicidade de A contemplar comentam a sua soberana majestade; Ela se apresenta “ut castrorum acies ordinata”, mas ao mesmo tempo é “Mater clementiæ et misericordiæ”.
Poderíamos fazer um estudo de Nossa Senhora com o auxílio dos mesmos princípios que aplicamos na análise do céu e do mar. Podemos contemplar, numa perfeita harmonia, contrastes aparentemente irreconciliáveis, como o da Mãe chamada a Virgem das Virgens, mas que também poderia, muito lícita e validamente, ser chamada a Mãe das Mães.
Consagração a Nossa Senhora, obra-prima da criação

Se assim é Nossa Senhora, impõe-se que o homem se consagre a Ela, obra-prima da Criação, para, por meio d’Ela, poder amar mais profunda e estritamente a obra de Deus no Universo.
Ora, a consagração a Nossa Senhora consiste em o homem dar-se a Ela. E, já que ele pode realizar em si de algum modo as virtudes que n’Ela refulgem, dar-se à Mãe de Deus significa, para o homem, procurar imitá-La e também servi-La. O conhecimento de Nossa Senhora, a admiração por Ela, a imitação e o serviço d’Ela são os elementos integrantes desta completa consagração a Maria Santíssima, que nós queremos verdadeiramente realizar.
Daí passamos a uma pergunta: Qual a influência exercida pelas condições peculiares à vida no século, no modo de vivermos nossa consagração? A vida no século deve ser de tal modo, que os mesmos princípios de beleza universal, que revertem em última análise em princípios de moralidade e santidade universal, se reflitam não só nas almas, mas em tudo aquilo que cerca o homem.
Por uma misteriosa afinidade, formas, sons, cores e perfumes podem exprimir estados de espírito do homem. É necessário, pois, que reflitam estados de espírito virtuosos, para que nos ambientes o homem encontre os recursos necessários para a sua santificação. Devem ser imagens de Deus, que lhe falem aos sentidos e lhe deem o atrativo da virtude, o estimulem por essa forma a conhecer e ter apetência daquela beleza incriada de Deus, que ele só verá face a face na glória dos Céus. Organizar uma ordem temporal que assim forme as almas e as convide para o Céu, eis uma alta missão dos leigos vivendo no século.
Claro está que tal ordem temporal teria uma consonância profunda com a Revelação, os ensinamentos e as leis da Igreja, bem como com os ditames da verdadeira ciência. Ela seria pois o reinado de Jesus Cristo, o reinado de Maria na Terra.
Consagração a Nossa Senhora em nosso século
A esta altura podemos nos perguntar: No nosso século, em que consiste o serviço de Nossa Senhora? Consiste em salvar as almas por todos os meios lícitos, dentre os quais queremos acentuar este: tomar todas as coisas, ordená-las dentro desse espírito e construir a cultura e a Civilização Cristã. Pois estas, sob certo aspecto, não são senão a disposição das coisas de maneira que elas sejam nesta vida o reflexo de Deus, e assim orientem as almas para a vida eterna. Estar consagrado a Nossa Senhora e servi-La é sustentar, promover e defender, contra os seus adversários, a cultura e a civilização, comparáveis àquela pérola preciosa que o homem deve procurar, vendendo todas as coisas que tenha. Cultura e civilização estas que são aquela paz na Terra, prometida aos homens de boa vontade pelos Anjos de Belém, a única paz de Cristo no reinado de Maria.
Assim, todo verdadeiro Terceiro carmelita, que compreenda o que é a sua consagração, é não só um homem profundamente interior, mas soldado nato da cultura e da civilização cristã.
Fonte: Revista Catolicismo n° 847, julho de 2021. Link: Catolicismo n° 847, julho de 2021.



